Soja, milho e a nova geopolítica do agro brasileiro
Por Sílvia Monteiro · 2 de julho de 2025
A guerra comercial entre Estados Unidos e China não terminou. Ela se transformou. E o Brasil está no centro dessa transformação de uma forma que poucos analistas previram com precisão.
Quando Washington impôs tarifas sobre produtos agrícolas chineses em 2018, a China respondeu redirecionando suas compras de soja para o Brasil. O que parecia uma janela temporária se tornou uma mudança estrutural: o Brasil consolidou sua posição como principal fornecedor de soja para a China, com participação de mercado que hoje supera 65%.
O lado que o setor prefere não discutir
A dependência do mercado chinês é uma faca de dois gumes. Quando a China cresce, o agro brasileiro prospera. Quando a China desacelera — como está acontecendo em 2025, com crescimento do PIB projetado em 4,2%, abaixo da meta oficial — o impacto chega rapidamente nos preços das commodities.
O preço da soja na Bolsa de Chicago acumula queda de 12% no ano. Produtores do Mato Grosso que travaram contratos a preços mais altos no início do ano estão absorvendo perdas significativas.
"Diversificação de mercado é um discurso bonito. Na prática, é muito difícil substituir o volume que a China compra." — Diretor de uma das maiores tradings do agro brasileiro
O que vem a seguir
O Ministério da Agricultura tem trabalhado na abertura de novos mercados — Índia, Indonésia, países do Oriente Médio. Os resultados são modestos até agora, mas a direção está correta. A questão é se o setor consegue diversificar antes que a dependência da China se torne um problema maior.
Sílvia Monteiro cobre agronegócio e commodities para a UltraBR.